A caixa está vazia
Ele quebrou.
Quebrou por dentro, como as pessoas se quebram quando sofrem traumas amorosos, decepções, perdas de importância emocional.
Ele parecia bem, ou ao menos eu achava que duraria mais algum tempo. A aparência era enganosa e eu ignorei propositadamente os sinais. Ele não carregava a bateria com a mesma rapidez e quando carregava a carga se esvaia. Eu levava o carregador por toda parte e dizia que ele estava viciado, mesmo sabendo que esses aparelhos já não se viciam em energia como antes. Somos nós que nos viciamos.
Eu não queria ver que a resistência dele em responder a minha digital e aos comandos dados por meus dedos em sua tela eram um sintoma de que seu processador estava com os dias contados. Mas a gente também faz isso nos relacionamentos...
Confiante na ilusão perene eu salvei nele minhas melhores fotos, os prints das mensagens mais lindas, meus contatos, os históricos de minhas conversas, mormente as pandêmicas. Deixei que nele fossem gerenciadas minhas contas bancárias, os pedidos de meus clientes, os meus planos anotados num post digital, ideias para títulos de contos e de livros, projetos para quando o tempo não parecer andar no dobro da velocidade da luz. Confiei, exatamente, como já fiz com amigos e amores.
Mas ele quebrou.
E por mais que eu defenda a independência tecnológica, não posso negar a premente necessidade evolutiva, minha e dele. Foi o fim de um ciclo. Terei que aprender coisas novas na ferramenta que está para chegar e certamente serei dela tão ou mais dependente do que fui da anterior.
O modo de vida que adotamos nos impele uma agilidade de bits e bytes que a roupa orgânica que vestimos para existir já não dá conta sozinha. Dependemos destas extensões da memória, do raciocínio matemático, da visão espacial, do braço que mesmo tremendo pode gerar uma linha reta, isso quando as ferramentas funcionam.
Mas o meu quebrou.
E quando quebrou, como quem diz chega em letras garrafais e simplesmente parou de responder, parou de me obedecer foi que eu o notei. Era bonito, uma caixa retangular fina, bem desenhada em dourado, sem um arranhão, nada que dissesse - estou decrépito, obtuso, não sirvo mais, ao contrário de certos governantes que possuem todas essas características e continuam ativos. Quem sabe foi isso que tenha feito eu me enganar tanto sobre a iminência do seu fim? Nunca saberei.
O fato é que ao mesmo tempo se quebrou uma cúspide e mesmo sendo um pedaço real do meu corpo não me deu tanta dor de cabeça quanto a inércia da tal caixinha de ouro. O dentista não fez pouco caso do assunto, mas não recomendou providências tão urgentes como as que tive que tomar em relação a substituição do Sr. Smart.
Pretendo guardá-lo. Vou usar como peso de papel eu acho, mas quero olhar para ele, de vez em quando, e me lembrar não só dos efeitos nocivos dessa dependência, mas de quanto ainda preciso me preencher de significância para não sentir os vazios que teimo em esconder no celular.
Bárbara Sanco 24.03.2021
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