O que o amor tem a ver com isso?
De repente tudo muda e muda tanto que fica igual.
A pandemia já serviu para mil propósitos nos mais diferentes grupos.
Os que descansaram e cansaram de descansar.
Os que se cansaram e ainda se cansam sem poder parar.
Os que tiveram tempo de ficar com a família e ficar tão próximos que puderam perceber que separar era melhor.
Os que se afastaram da família para zelar pela sua existência e foi o ficar longe por amor mais necessário e doloroso que já vimos.
Os que fizeram do seu tempo um empilhar de cursos, dietas, maratonas de séries...
Os que multiplicaram seu tempo em tarefas extras para que o pão não fosse ausente.
Os que olharam para fora, bateram panelas, apontaram o dedo ou tiraram a máscara e apontaram o dedo de volta.
Isso mudou o mundo?
A pandemia é um fato. Um fato que mudou muita coisa. Mas muita coisa mudou só por um tempo.
A verdadeira mudança, aquela que mudará o rumo da história ainda dorme.
Nem mesmo a quantidade avassaladora de mortes que fere e atordoa os que usam o coração não só para bombear sangue, se consolida motor capaz da verdadeira mudança.
Ela não acontecerá enquanto não aceitarmos nossa arrogante necessidade de estarmos certos e receber adulações caninas como um amor de retribuição.
A mudança é refém do nosso orgulho, em lutar pelo duvidoso para não abrir mão de nossas escolhas caducas, originais de um passado de imaturidade e ignorância, que forçamos a história para fingir que aconteceu de outra maneira.
Mudam os livros, os ministros, as formas de fazer o jeitinho, enquanto as pessoas morrem a mercê de si mesmas, de seus esforçados e desprovidos de instrumentos irmãos de caminhada e quiçá de sua fé.
Os heróis anônimos serão esquecidos em no máximo cem anos. Os acordos diplomáticos, as picuinhas sobre os programas de TV, os escândalos que a imprensa conseguiu divulgar tudo é pó do futuro.
Imaginar o transcorrer do tempo dá o tom da irrelevância de certas coisas.
Para mudar mesmo a face da terra e o rumo da história humana sobre ela a gente precisa lembrar de quem somos.
Que somos parceiros genéticos nessa jornada, que é preciso fazer pontes para o livre trânsito da paz e das diferenças, cultivar jardins para que perfumem toda a quadra e quem por ela passar.
As pontes precisam ser sólidas, cavadas na pedra para não desmoronar quando o vento de uma política insensata soprar.
Os jardins precisam ser muitos para que todos possam cultivar flores de equidade, sabedoria, sensatez e entender que quando uma flor nasce isso é o ciclo da vida, mas ela um dia morrerá e isso também faz parte do mesmo ciclo.
Não podemos ficar mais escandalizados com a morte do que com vida se não dermos valor e sentido para a segunda.
Ao humano é preciso o aprendizado do coletivo.
As desgraças lançam sementes de humanismo, mas se elas brotarão ou não vai depender de quanto nosso amor próprio está em dia.
Não se pode exigir que alguém ame outra pessoa se não consegue ela mesmo amar-se e para converser-se merecedora se esconde sob as vestes púrpuras dos sentimentos umbilicais.
Mas é exatamente isso que precisamos. Que o ventre se rompa e dele seja expulso o ignóbil e o cruel. Não de todo. Ao menos agora. Pois ainda não estamos preparados para tanta abstinência de nossa própria selvageria, mas o suficiente para que aprendamos a amar nossa existência.
Eu queria me iludir e dizer que outras crianças não serão mortas por seus padrastos com o consentimento das mães ou até com sua ajuda, mas não posso.
Muitas patroas deixarão filhos de empregadas sozinhos em elevadores para a morte, muitos de nós vão sucumbir e serão esquecidos como esse caso que eu citei e você não lembrava mais.
É um fato.
Nosso coração é pequeno e não suporta todas as dores do mundo.
Mas nasceu apto para suportar as nossas.
Ame-se e deixe que esse amor transborde.
Só assim nós deixaremos de ser esse caldo que engrossa o mais do mesmo.
O amor é a maior revolução, a maior de todas, a definitiva.
10.04.2021
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